Microtendências ainda definem consumo de moda?

Por: Cris Cardoso

Por décadas, a moda se apoiou na ideia dos pequenos movimentos estéticos que explodiam, dominavam conversas (e mais recentemente feeds) e depois desapareciam tão rápido quanto surgiram: as microtendências. Carinhosamente, chamo-as de fogos de Copa, em 31 de dezembro.

Essa cadência parecia lógica em um mundo regido por ciclos claros e top down de pré-coleção, alta estação, resort, inverno e verão de conversas supostamente bidirecionais entre marca e consumidor.

Mas os tempos mudaram. Com o passar dos anos (e, aqui, precisamos lembrar – a pandemia) essa lógica tem se fragmentado e cedido lugar a um conjunto de referências que não morre nem nasce de forma isolada, mas se transforma e se funde no repertório coletivo de quem veste e de quem cria moda.

A era das microtendências como “cottagecore”, “goblin mode” ou “quiet luxury”, tinha uma característica essencial: eram nichos virais, já pensou nisso? Surgiam refinadas por algoritmos e amplificadas por telas.

Nos últimos anos, essa dinâmica perdeu força. O mundo físico retomou peso em nossas escolhas e experiências. A moda deixou de ser apenas espetáculo de feed e passou a ser encarada no espaço social real, no comportamento, na cultura e na identidade individual (como sempre deveria ser, diga-se de passagem). Isso não significa que não existam sinais estéticos em circulação. Significa que esses sinais já não vivem como episódios isolados, mas se ancoram em movimentos culturais mais amplos. Menos descartáveis.

O termo “tendência” é mais amplo e não nomeia simplesmente um estilo visual; é uma sensação, uma narrativa que pode atravessar moda, música, comportamento e atitudes. Tender a ser nos conecta entre o frescor do novo e o estabelecimento dele, no nosso agora. Lembrei de um vídeo antigo que produzi para o Canal Cris Cardoso no Youtube, no qual expliquei a diferença entre macro e microtendência. Um material tem seus quase 10 anos.

Enquanto uma microtendência já nascia fadada a florescer sabendo de seu triste desfecho de murchar em semanas ou meses, a macrotendência era o norte, o guarda-chuva que sustentaria o grupo das microtendências em torno de si e de suas transformações orgânicas, que influenciam no modo como as pessoas se expressam e se veem no mundo. Nem sempre no efeito Sonrizal, como chamo (efervescente), mas com personalidade e valor.

Esse questionamento sobre macro e microtendências também faz parte do alinhamento com o que sabemos sobre ciclos de moda. Tradicionalmente, tendências se desenvolviam ao longo de décadas, com retornos e ressignificações constantes. Hoje, com a hiperaceleração digital e o valor crescente da experiência individual, as tendências se ampliaram. Elas se refugiam em narrativas mais amplas, em contextos socioculturais que duram, em vez de migrarem de um sub-aesthetic para outro.

Quando pensamos em consumo real, aquele que acontece no mundo off-line (ou no online mas fora do ao vivo ou de um story), nas compras que as pessoas fazem com calma, nas roupas que realmente entram no armário e se repetem nos looks do dia, percebemos que as microtendências nunca foram o principal motor. Elas impulsionam cliques, hashtags e hype de curto prazo? Sim, ainda. Mas o que sustenta a moda e o que as marcas, designers e clientes carregam no tempo, são valores, movimentos e referências que atravessam temporadas, no critério da comunicação não verbal e retratado por cores e formas.

A moda passou a refletir um contexto mais amplo de comportamento humano. Não se trata de um item viral numa semana e esquecido na seguinte. Trata-se de como os significados são costurados entre imagem, identidade, história e experiência.

Por isso, falar de “microtendências” como se fossem fenômenos independentes de significado cultural faz menos sentido (ou quase zero sentido) hoje. A moda que importa emerge de conversas mais profundas: sobre como nos expressamos, sobre corpo e gênero, sobre pertencimento e sobre o modo como a cultura circula. Isso é maior do que qualquer hashtag.

E essa evolução exige de quem cria e vende moda algo mais exigente do que entrar na onda viral. Nosso olhar e nossa comunicação de condução devem compreender e traduzir uma narrativa que ressoe com as pessoas ao longo do tempo. Marcas que ainda apostam em impulsos passageiros podem até ganhar atenção momentânea (o sonrizal necessário). Mas as que deixam marca e realmente fidelizam seus públicos são aquelas que articulam estética, contexto e propósito de forma duradoura e coerente com a comunicação.

Talvez isso seja o fim das microtendências da forma como as entendíamos. Mas é também o começo de uma moda mais rica, mais profunda e mais conectada com a vida das pessoas. Moda assim não se esgota em ciclos instantâneos. Ela funciona como conversa gostosa, dessas que temos no café preferido, com nossas pessoas preferidas.

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